Entrevista com Fernanda Nanci

Doutora em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP/UERJ), mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2011), especialista em Gerenciamento de Projetos pela Universidade Federal Fluminense (2014) e graduada em Relações Internacionais pelo Centro Universitário La Salle – RJ (2008). Atualmente é coordenadora e professora do curso de Relações Internacionais no Centro Universitário La Salle-RJ, coordenadora do Núcleo de Estudos Atores e Agendas de Política Externa (NEAAPE), pesquisadora do Observatório Político Sul-Americano (OPSA). Entre 2018 e 2019 realizou pesquisa de campo para sua tese de doutorado na Colômbia na Universidad de los Andes (UNIANDES) e na Universidad Sergio Arboleda (USA). Tem interesse nas seguintes áreas acadêmicas: Análise de Política Externa, Política Externa Brasileira, Política Externa Colombiana, Política de Defesa, Teoria de Relações Internacionais, Regionalismo, América do Sul, Cooperação Sul-Sul, Políticas Públicas.

Isadora Barcelos – Até que ponto a senhora acha que as relações entre o Brasil e outros países será afetada com essa pandemia? E quais seriam as principais consequências decorrentes do abalo das relações bilaterais que o Brasil detém até o presente momento?

Fernanda: Sob meu ponto de vista, as relações exteriores do Brasil já estão sendo afetadas negativamente no contexto da atual pandemia. Seguindo a tendência do atual governo em sua política externa, o país vem se isolando ao invés de investir no multilateralismo como uma saída para gerenciar e lidar com a crise sanitária de escala mundial. As críticas ao que o atual Chanceler denomina “globalismo” e às organizações internacionais, como ao próprio trabalho da Organização Mundial da Saúde (OMS) no enfrentamento à Covid-19, afastam o país de discussões internacionais relevantes sobre o desenvolvimento de soluções para esta emergência de saúde global e para o estreitamento de parcerias internacionais. Veja o exemplo da China. O país é nosso principal parceiro comercial e uma das maiores potências no cenário internacional. Embora percebamos um movimento de unidades subnacionais (como estados e municípios) e de empresários buscando estreitar as relações com a potência asiática em meio à pandemia, inclusive buscando cooperação na área da saúde, como por exemplo o estado de São Paulo, o governo federal adota posturas nada convencionais e diplomáticas (como os pronunciamentos xenófobos do ex-Ministro da Educação Weintraub e do próprio filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro) e se posiciona de forma favorável aos EUA, que, por sua vez, não pensou duas vezes antes de fechar as fronteiras aos brasileiros. Na minha opinião, este era o momento para o governo manter a tradição da política externa de enfatizar o multilateralismo e participar ativamente da discussão sobre a construção dessa nova configuração mundial. Certamente, as consequências das posturas adotadas pelo Brasil nesse contexto de pandemia não garantirão ao país um lugar de destaque e o conduzirão a um progressivo isolamento, afetando a credibilidade e sua projeção internacional de forma negativa.

Mayara Amaral – Acerca das relações entre Brasil e Argentina, quais são as consequências mais preocupantes no cenário pós-pandemia, dadas as diferenças entre os dois governos e as diferentes formas sobre como lidaram com a situação atual?

Fernanda: Acredito que independentemente da pandemia, o cenário das relações bilaterais Brasil-Argentina é muito preocupante. Não há registro na história recente, ao menos nas últimas 3 décadas, de um afastamento tão grande entre os dois principais países sul-americanos. Desde a década de 1980, Brasil e Argentina vinham estreitando relações progressivamente, mesmo com inúmeras diferenças em discussões comerciais como no âmbito do Mercosul no que diz respeito à tarifa externa comum, por exemplo. Acredito que as formas diferentes de lidarem com a pandemia não é uma variável de peso que afete as relações bilaterais, embora fomente uma série de críticas públicas do presidente Alberto Fernández a Jair Bolsonaro por sua ênfase na economia em detrimento da saúde pública. Mas, acredito que as relações se veem muito mais impactadas – com pandemia ou sem pandemia – pela ideologia do atual governo brasileiro, pelo desprezo que nutre pelas relações com os vizinhos e pela falta de visão estratégica sobre a integração regional. O afastamento entre os países pode resultar em prejuízos comerciais para o Brasil, visto que a Argentina é um dos nossos principais parceiros, dando espaço para que outros países ganhem peso no comércio exterior argentino e sul-americano, como a China. Além disso, é importante destacar que o afastamento do Brasil dos seus vizinhos, não apenas da Argentina, vem abrindo um vácuo de poder na região, no sentido de que há um “vazio político”, uma ausência de liderança regional. Esse vazio abre espaço para que outros países vizinhos e potências extra regionais (nitidamente China e EUA) ampliem sua presença e influência na América do Sul.

Maria Eduarda Diniz – De que maneira a entrada da Colômbia na OCDE, em abril deste ano, pode afetar as relações diplomáticas com o Brasil, a médio prazo, considerando o interesse do governo Bolsonaro em assumir essa vaga, desde o início de seu mandato?

Fernanda: As relações bilaterais da Colômbia com o Brasil são antigas e apesar de não ouvirmos falar muito do nosso vizinho, os países têm intensificado as relações, por exemplo em projetos em zonas fronteiriças. Não vejo um impacto negativo nas relações bilaterais com a entrada da Colômbia na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma vez que o país não foi o primeiro latino-americano a aderir à instituição (Chile e México já aderiram à OCDE). Não há uma concorrência neste sentido, pois o Brasil também pode ser aprovado para ingressar na organização, após completar os procedimentos internos para adaptar-se à Convenção da OCDE. Neste caso, inclusive, a Costa Rica também está aguardando aprovação para ingressar no organismo. Acredito que o interesse de ambos os países em fazerem parte da OCDE mostra uma afinidade política entre os governantes, no caso Iván Duque e Jair Bolsonaro, que comungam de alguns princípios mais à direita do espectro político. Veja que os dois presidentes apoiaram a criação do PROSUL (Foro para o Progresso da América do Sul) em detrimento da UNASUL, órgão de onde ambos formalizaram seus pedidos de retirada, e apoiam políticas semelhantes na região, como o isolamento da Venezuela com Nicolás Maduro.

Ester Meirelles – Como estão atualmente as relações Brasil-EUA, levando em conta que Bolsonaro e Trump possuem níveis consideráveis de reprovação por seus cidadãos?

Fernanda: Sem dúvidas, a popularidade dos dois presidentes caiu nos últimos tempos e foi impactada pela condução, em minha opinião desastrosa, da pandemia de Covid-19
em seus respectivos países. Contudo, não vejo um impacto direto da baixa popularidade dos presidentes nas relações diplomáticas do Brasil com os EUA. Vejo, na verdade, muita semelhança na forma como os dois presidentes conduzem as relações exteriores e utilizam-se da crise sanitária para fomentar suas estratégias de reeleição, agradando as suas bases eleitorais conservadoras, ao criticar a China, priorizar a economia, negar os efeitos severos da Covid-19, criticar a OMS e o multilateralismo, etc. Nesse sentido, eu acredito que a postura comum adotada pelos dois governantes no cenário da pandemia – com discursos negacionistas – serviu para aproximar os países e para ampliar ainda mais a submissão do atual presidente brasileiro aos EUA, mesmo diante das declarações de Trump de endurecimento de medidas em relação ao Brasil na crise sanitária – como bloqueio de voos e entrada de viajantes estrangeiros que tenham visitado o Brasil. Esse “alinhamento sem recompensa” parece ser suficiente na visão do atual chanceler, que já declarou que as relações estão ótimas no atual momento. Na minha percepção é alinhamento por alinhamento, não tem pragmatismo. Como disse Gerson Moura com relação ao governo Dutra, parece que o alinhamento se tornou uma finalidade da relação e não um meio para obtenção de resultados.

Maria Nathália – Devido às inevitáveis consequências da pandemia, a economia global já vem sofrendo retração o que deve agravar-se ainda mais. No caso do Brasil, a situação pode se agravar devido às condutas do atual governo, que tem se mostrado falho no combate do coronavírus. Que medidas teriam que ser tomadas em cenário pós-pandemia para que o país possa recuperar seu déficit econômico?

Concordo que a condução desastrosa do governo brasileiro no enfrentamento à pandemia pode agravar ainda mais as consequências adversas em âmbito econômico, além do sanitário e do social. Não sou especialista em economia, mas venho acompanhando alguns debates sobre recuperação econômica no mundo pós-Covid e as previsões é que será um processo lento. No entanto, assim como em outros momentos de crises, há um espaço para a implementação de mudanças e adoção de novas práticas. Pós-crise de 29, por exemplo, houve um intenso debate sobre o Estado de bem-estar social; pós gripe espanhola se percebeu a necessidade de adotar bons sistemas de saúde nacionais. A pandemia mostrou, na minha opinião, a importância do Estado mesmo diante de uma frequente redução de seu papel. A adoção de medidas redistributivas é essencial no momento e no cenário pós-pandemia, embora muitos venham defendendo a volta da agenda de reformas econômicas e do Estado mínimo. A adoção de um fundo que ajude na recuperação de serviços (como de saúde e de educação) e a oferta de crédito e subsídios para auxiliar a retomada das atividades econômicas podem fomentar o crescimento.

Luiz Eduardo – Como avalia, no geral, o andamento da cooperação sul-sul em um cenário pós-pandemia?

Fernanda: Eu acredito que, independentemente da pandemia de Covid-19, a cooperação
sul-sul é um dos mais importantes instrumentos à disposição dos Estados em desenvolvimento para fortalecer a governança em diferentes áreas e oferecer soluções para problemas coletivos. Em emergências globais, como a crise do coronavírus, mais do que nunca a importância da cooperação, em múltiplos níveis e áreas, se impõe, seja ela Norte-Sul, Sul-Sul e/ou triangular. Veja o exemplo da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), escritório regional da OMS nas Américas. Em um cenário antes da  pandemia sua atuação já era relevante por estabelecer normas sanitárias em portos e aeroportos e diretrizes de programas de saúde pública. Em um cenário de pandemia, os organismos internacionais na área da saúde têm atuação estratégica, pois operam de forma a aproximar os Estados-membros e facilitar a coordenação das políticas nacionais nas áreas afetadas, como de saúde, de fronteira, na economia, etc. A cooperação, seja multilateral ou bilateral, sul-sul ou não, também é essencial no campo da ciência e da tecnologia no momento, como no desenvolvimento de medicamentos, como as vacinas. No cenário pós-pandemia, a cooperação será ainda mais necessária e, a meu ver, fomentada para estimular os países a repensarem seus sistemas de saúde, estabelecerem novas diretrizes sanitárias e encontrarem conjuntamente formas de ampliar o financiamento e o acesso às tecnologias. Claro que assim como em qualquer área que envolva decisões políticas, o cenário da cooperação dependerá da disposição dos países
colaborarem, o que esbarra nas preferências dos grupos políticos e econômicos que estão no poder e nas suas ideologias.

Nathan Oliveira – Como foi sua experiência com o ensino remoto? É possível o ensino sobre as Relações Internacionais, ainda que de forma online? Quais seriam as estratégias para continuar com o dinamismo nas salas de aulas virtuais?

Fernanda: Eu sou professora de Relações Internacionais há quase 10 anos e não tinha ainda experimentado o ensino remoto. Posso dizer que foi um desafio e que me surpreendi com os bons resultados, não apenas nas disciplinas que eu lecionei ao longo do semestre, mas também nas disciplinas do curso em geral, ao fazer a análise enquanto coordenadora. É claro que há uma grande diferença entre a aula presencial e a aula online, mas adotamos a prática de sempre garantir encontros com os estudantes nos horários das aulas, trocando ideias e debatendo o conteúdo, de forma que o ensino remoto não se tornasse “robotizado” e pouco didático ou dinâmico.
Adaptamos o tempo das exposições de conteúdo, adotamos exercícios de fixação do conteúdo online, como formulários e quizzes, buscamos explorar outras competências e habilidades dos estudantes, mas também desenvolvemos em muito a nossa criatividade e didática como professores. Digo, a partir da minha experiência e dos colegas da universidade em que trabalho, que o volume de trabalho aumentou, nos sentimos mais cansados, mas ao mesmo tempo mais preparados em termos de didática. Tem sido um período de constante aprendizado e de muitas adaptações. Creio que é possível ensinar qualquer conteúdo de forma online e que a tecnologia
fará, cada vez mais, parte da nossa rotina na área da educação. É uma tendência mundial. Claro que para isso precisamos nos adaptar, contar com recursos tecnológicos adequados, com aperfeiçoamento da didática, com a inversão do modelo tradicional em que o aluno aprende o conhecimento a partir da transmissão do professor. No novo modelo o professor é mais um facilitador, o aprendizado é mais ativo e o aluno se torna o verdadeiro protagonista. É um processo, leva tempo, mas estamos caminhando para essa mudança de paradigma do aprendizado e, nesse cenário, a pandemia pode acelerar esse processo.

Pergunta extra – Existe a possibilidade de, após o fim da pandemia, a comunidade internacional avançar significativamente em questões humanitárias, visto que a pandemia afeta sobretudo populações em vulnerabilidade social?

Fernanda: Eu realmente gostaria de acreditar que esse avanço poderia se estabelecer e até certo ponto eu acredito, pois percebo que existe uma intensa cooperação internacional no momento e uma rede ativa de solidariedade, desde o local até o global. Contudo, no jogo político internacional muitos elementos de poder se impõem e quando assistimos a países defendendo sua soberania, movimentos nacionalistas ganhando força, políticas xenófobas e protecionistas sendo adotadas, percebemos que o próprio conceito de comunidade/sociedade internacional encontra diversos limites.

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