Wakanda e as Relações Internacionais – Parte 1 – Aspectos Introdutórios

Há um mês, nos deparávamos com a notícia de que Chadwick Boseman, o T’Challa do filme Pantera Negra, tinha falecido nos Estados Unidos. O choque da notícia foi sentido em muitos lugares, especialmente no Brasil, e hoje será iniciado um conjunto de três textos da série “Wakanda e as Relações Internacionais”. Neste primeiro texto, serão apresentados aspectos introdutórios para entendermos a relação do filme Pantera Negra com o contexto em que vivemos.

Chadwick Boseman foi um ator e produtor estadunidense que estrelou no papel de Pantera Negra, filme da Marvel, em 2018. Além de ser conhecido por Pantera Negra, Chadwick atuou em filmes como 42, Vingadores, Destacamento Blood, entre outros. Em 28 de agosto, foi informada a morte do ator devido a um câncer no cólon, comovendo fãs, pessoas que trabalharam com ele e instituições de direitos humanos. Mesmo Pantera Negra sendo baseada em uma história fictícia, o filme cativou os fãs por conta de uma maior representatividade de pessoas negras e de um cenário afrofuturista.

Pantera Negra tem uma relevância significativa no cenário Hollywoodiano por ser o primeiro super-herói negro nos desenhos da Marvel. Criado por Stan Lee e Jack Kirby, a história em quadrinhos de Pantera Negra foi lançada em um contexto de Guerra Fria, em que os Estados Unidos estavam em uma disputa tecnológica com a União Soviética, e de lutas por direitos civis pela população negra nos Estados Unidos, influenciando diretamente a história do super-herói.

Das histórias em quadrinhos para as telonas de cinema, o filme contou com Ryan Coogler (cineasta negro e diretor de filmes como Creed, Fruitvalle e Pantera Negra 2), um elenco majoritariamente negro e um figurino que falava muito da sua relação com a África e o afrofuturismo. Pantera Negra teve um faturamento de mais de 1 bilhão e 300 milhões de dólares, foi o primeiro filme de super-herói a ser indicado na categoria de “Melhor Filme”, foi indicado a mais de 6 categorias e ganhou 3 Oscars (Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte).

A trilha sonora contou com um mix de R&B e instrumentos tradicionais africanos; a fotografia trouxe de ambientes verdes ao pôr-do-sol, além de ter apresentado o país fictício africano chamado Wakanda. “Wakanda para sempre”, já diziam no filme. E me perguntei: onde estaria minha Wakanda? — E eis a relação entre a morte de Chadwick Boseman e o Brasil. Lembro-me de ir ao cinema duas vezes porque eu não estava acreditando ao ver tantos atores negros em um só filme. Finalmente consigo me ver em um filme. É necessário ressaltar isso porque muitas vezes fui comprar bonecas em lojas e só via bonecas brancas, o famoso “cor de pele” que não representava a minha pele. Na minha cabeça sempre me perguntei: por que não existe uma boneca como eu?

Com Pantera Negra de volta aos holofotes por conta da morte de Chadwick, imaginei onde poderia estar a Wakanda real, onde seria aquele lugar seguro para afrodescendentes que esperaram por muito tempo para se reconectar com suas raízes. Aimé Césaire já falava da sua terra natal, Martinica, com carinho e dos seus laços com a África. O mesmo escritor refletia e era crítico em relação à presença europeia no continente africano, questionando os pressupostos ocidentais doutrinados pelos colonizadores.

No Brasil, o cenário assemelhava-se ao continente africano: fluxo de escravizados, trabalho forçado para manter um sistema que dava benefícios apenas a uma minoria. Mesmo em um Brasil contemporâneo, em que foi introduzida a Lei 10.639 de 2003 de ensino da História da África, da cultura afrodescendente e africana nas escolas públicas e privadas, ainda há uma certa barreira de acessar conhecimento em relação à África.

Nota-se ainda obstáculos para maior acesso a materiais que vão além de temáticas como a escravidão, conflitos, pobreza. Como Lélia Gonzalez pensava em seu artigo, existe uma dificuldade na sociedade brasileira em reconhecer que a cultura africana faz parte da construção de uma identidade nacional, mas além de representações estereotipadas relacionadas ao lucro, como a mulata, o samba e afins. Ainda segundo a autora, seríamos constituídos do que ela intitula como amefricanidade, percebendo as nossas raízes americanas e africanas no desenrolar da História. Nesse sentido, é necessário perceber como a História brasileira é tão rica em diversos aspectos e, a partir disso, democratizar o conhecimento para todas as gerações/camadas da sociedade que não incluem apenas temas específicos.

Com a comoção do público em relação à morte de Chadwick, Pantera Negra foi veiculada pela primeira vez em TV aberta no Brasil, pela Rede Globo de Televisão. Talvez pareça um acontecimento sem relevância, mas a televisão é ainda um dos meios de comunicação que tem sua abrangência em diversas camadas da sociedade. Pensando nisso, muitas pessoas, como eu, puderam se ver no filme, em diferentes aspectos. Imaginar que talvez crianças tiveram a possibilidade de assistir um super-herói negro na televisão é pensar na possibilidade de agregar uma perspectiva de mundo que nem conheciam antes: de ser protagonista de sua própria história.

E então, a África é colocada neste texto como um ponto de discussão nas Relações Internacionais: como estamos vendo o continente nas nossas disciplinas de graduação, mestrado e doutorado? O que conhecemos dele? Quais são as perspectivas teóricas nascidas no continente africano? Qual é o lugar da África nas Relações Internacionais? Se você conseguiu responder a essas perguntas, estamos progredindo na questão de ensino de África nas Relações Internacionais.

Como pode ser visto ao longo da História, a África passou por diferentes “lugares” nas Relações Internacionais: de ser uma zona de disputa entre grandes metrópoles, zona de influência dos grandes polos na Guerra Fria (EUA x URSS), de décadas perdidas, de vácuos de poder no pós-Guerra Fria, de um considerado renascimento. Se não é por uma perspectiva histórica, o continente é abordado pelas famosas temáticas, como conflito, pobreza, fome, AIDS e demais marcadores que tendem a associar imediatamente ao continente africano. Então, o que se sabe, de fato, sobre ele?

Acredito que se alguém dissesse que a Wakanda do filme é baseada em fatos reais, muitas pessoas acreditariam, porque pouco é falado de países e cidades africanas, dos centros urbanos, da potencialidade do continente em relação à tecnologia, desenvolvimento e crescimento econômico. Sem contar o desconhecimento dos países no mapa, não identificando as regiões estratégicas e as próprias relações intra-africanas no continente. Quais são os blocos de integração regional? Quais são as grandes economias africanas? Pois bem.

Quantos países você conhece que não associa automaticamente a sua história à questão da guerra? Um país bem conhecido pela Guerra Civil de 1994 é Ruanda, a qual ocasionou o genocídio dos tutsis e a morte de mais de 800.000 pessoas; mas também na história desse país existe uma cultura, um plano de reconstrução que vem sendo desenvolvido desde 1994, políticas de gênero que refletiram na maior participação das mulheres no parlamento e políticas voltadas para o meio ambiente, como a abolição de sacolas plásticas em Kigali (capital).

Wakanda é a ponta do iceberg para começarmos a pensar em regiões que são marginalizadas nas Relações Internacionais e o porquê disso ocorrer, por que ainda se invisibiliza conhecimentos, perspectivas teóricas, produções que são desenvolvidas nesses cenários? Além das regiões, temáticas como raça, negritude e outras categorias teóricas também são relegadas em relação ao mainstream de tópicos prioritários de discussões nas Relações Internacionais. Considerando isso, é interessante perceber que o desenvolvimento de agendas de conhecimento estão associadas, em um certo grau, a posicionamentos políticos e a interesses, priorizando e considerando como “universal” um conhecimento elaborado pelo centro/norte — o que não condiz com as múltiplas realidades existentes no espectro das Relações Internacionais.

Pantera Negra tornou-se um símbolo de representação da negritude e da África em várias partes do mundo, mas é necessário lembrar que a África também tem a sua própria voz, inclusive nos cinemas africanos. Atualmente está acontecendo o Cine África, iniciativa da Mostra de Cinemas Africanos em parceria com o Sesc São Paulo. O Cine África, que exibe os filmes até o dia 2 de dezembro, apresenta várias produções, de distintos países africanos, que fogem de estereótipos já esperados.

Nesse sentido, este texto introdutório tem o objetivo de gerar mais perguntas do que respostas, alimentando hipóteses para os textos a seguir. Num cenário tão bonito quanto o pôr-do-sol em Wakanda, termino com esta citação do filme: “Jogue-me no oceano com meus ancestrais que saltaram dos navios, porque sabiam que a morte era melhor do que a escravidão”.

Até a segunda parte do texto e Wakanda para sempre.

Revisado por João Marcelo Tonetto

1 comentário Adicione o seu

  1. Republicou isso em My Ruanda Brasile comentado:
    Meu primeiro texto para o Diário das Nações!

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