Wakanda e as Relações Internacionais – Parte 3 – e o nosso Brasil?

Camila Andrade

Iniciado com o primeiro texto sobre aspectos introdutórios e o segundo sobre o lugar da África nas Relações Internacionais, a série “Wakanda e as Relações Internacionais” finaliza com sua parte três, a qual trará aspectos sobre nossa realidade: onde está o Brasil nisso tudo? É um bom exercício para percebermos as conexões entre o cenário doméstico e o internacional, especialmente sobre as conexões entre Relações Internacionais e diferentes temáticas.

Como visto na primeira parte, o filme Pantera Negra, desde a sua estréia, teve impacto no quesito de reflexão sobre ancestralidade africana e representatividade dos negros no Brasil. A morte do ator Chadwick Boseman, em um contexto que em o movimento Black Lives Matter reacendeu todos os debates acerca da morte de pessoas negras nos Estados Unidos – e não se limita somente nesse país – fez com que o filme tivesse, novamente, um destaque internacional, entrelaçado com questões de negritude no Brasil.

Entender a negritude no Brasil perpassa a história da África: somos frutos da diáspora africana. Lélia Gonzalez é uma das autoras mais precisas ao afirmar que é preciso pensar na identidade brasileira como uma confluência que reflete o indígena, o português e o africano. Sim, o africano também faz parte da nossa cultura, mesmo com a propagação das políticas eugênicas para branquear o país. Essas políticas são alguma das ações da chamada “democracia racial” que vários governos brasileiros faziam questão de afirmar, mostrando como era positivo várias raças/etnias convivendo harmonicamente.

Essa harmonia deve ser ressaltada com base na mestiçagem; esta significa que alguma linhagem de brancos se mesclaram com negros e índios, sendo que essas relações eram frutos de violações. Ou seja, a mestiçagem não deveria ser uma fonte de orgulho e não existe uma democracia racial, já que tantas pessoas negras ainda morrem por conta das violências policiais, além de pessoas não terem suas necessidades básicas atendidas. E seguimos com o mito da democracia racial. 

O que mais representa a identidade brasileira é o conceito de amefricanidade, cunhado por Lélia Gonzalez, entendendo as nossas raízes na América do Sul e nossa ancestralidade no continente africano. Então, poderíamos responder a pergunta da primeira parte: onde está minha Wakanda? Existiria no Brasil um lugar seguro para os africanos e sua diáspora? Existiria na África uma Wakanda real? Quando fui a Ruanda, em 2015, eu não podia pensar em uma Wakanda porque ainda não conhecia a história do Pantera Negra, mas algo de interessante aconteceu nessa viagem.

A minha vontade de ir para o continente africano foi motivada em grande parte pela minha busca pela ancestralidade. Assim que cheguei em Ruanda e saí nas ruas, percebi o quão parecidas aquelas pessoas eram em relação a mim: me senti em casa, foi esse o sentimento que veio. Estar no país me fez lembrar da minha cidade natal, Salvador, que, culturalmente, não se distanciava de Ruanda. Estar rodeada de pessoas negras, sem me preocupar se alguém estaria me julgando pela cor da minha pele, se me seguiriam nas lojas pensando que eu iria furtar algo foi maravilhoso! Não ter essa sensação fez toda a diferença. 

Isso me fez pensar na importância do estudo de raça e racismo nas Relações Internacionais: você teve a oportunidade de ver essa temática de forma específica ao longo da graduação? Ter a oportunidade de estudar raça proporciona tirar o véu da história romântica contada pelos dominadores/colonizadores e ter uma percepção crítica de que o próprio sistema capitalista utiliza-se da categoria raça para a chegada de um grupo dominante ao poder, desumanizando os demais povos, como mostra Aimé Césaire em seu livro O discurso sobre o colonialismo.

A partir dos aspectos citados, por que negar essas raízes? Por que não oferecer a oportunidade de nós, negros, sabermos a história dos nossos ancestrais? Com 17 anos da lei 10.639 de 2003, que visa o ensino da História da África, da cultura afrodescendente e africana nas escolas públicas e privadas, ainda existe dificuldade de acesso a materiais históricos, antropológicos e de outras áreas que vão além de temáticas como a escravidão, conflitos, pobreza e doenças. E por que não usar autores brasileiros que façam a conexão entre Wakanda, Relações Internacionais e Brasil? Por que não você fazer isso?

Foto: Reprodução.

Nós, como internacionalistas, temos que pensar fora das caixas. Pensar em estratégias que façam com que nossos alunos e parceiros profissionais compreendam que as Relações Internacionais são mais que uma área distante ou algo meramente externo que não influencia no doméstico. Trazer Wakanda nesse texto foi só mais um pretexto para discutirmos África, África e Relações Internacionais, África e Brasil. E não funcionou? Temos que pensar para além do arcabouço de temas e ferramentas do mainstream para comunicar e refletir sobre a nossa área, abrindo o leque para pesquisas futuras mais aprofundadas sobre temas que ainda são negligenciados.

No mais, foi um prazer abordar temáticas tão essenciais (e, pessoalmente, incríveis) como uma forma de plantar uma sementinha para criarmos lugares de trocas de experiências, teorias e grupos de estudos. Wakanda para sempre e até o próximo texto!

Referências:

CESÁIRE, Aimé. O discurso sobre o colonialismo. Lisboa: Sá da Costa, 1978.

GONZÁLEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. In: Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, nº 92/93 (jan/jun), 1988b, p. 69-82.

Revisado por Júlia Moreno 

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  1. Republicou isso em My Ruanda Brasile comentado:

    A terceira e última parte da aventura wakandiana.

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